terça-feira, 27 de abril de 2010

Declarações de Serra sobre Mercosul reacendem luz amarela na Argentina

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Para jornais argentinos, proposta de área de livre comércio é aceno de candidato tucano aos Estados Unidos, aos industriais de São Paulo e aos anos 1990

Serra fala em flexibilizar o Mercosul, apontado como culpado pela fase da balança comercial brasileira, com superávits relativamente menores que os vistos há um ou dois anos (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

As novas declarações do pré-candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, a respeito do Mercosul geraram mais repercussão entre os jornais argentinos. Depois de dizer que o bloco econômico é uma farsa, Serra tentou corrigir a expressão em entrevista à Folha de S. Paulo. E afirmou que o Mercosul deve ser “flexibilizado”.

Flexibilização, vale lembrar, é um termo caro aos tucanos e aos democratas, que na década de 1990 utilizaram a expressão como sinônimo de um Estado que deveria ser modernizado – “modernizado”, por sua vez, significava enxuto, dono de pouca coisa.

O diário Página12 colocou em relevo o trecho no qual Serra fala que o bloco econômico é um obstáculo a políticas econômicas mais agressivas. Trata-se de uma velha queixa de que o Mercosul atrapalha a autonomia brasileira, já que não permite que, sozinho, o país assine alguns acordos comerciais bilaterais. É esse um dos motivos que explicam que o Chile não se tenha integrado plenamente à união.

Serra culpou o bloco pela atual fase da balança comercial brasileira, com superávits relativamente menores que os vistos há um ou dois anos. “Nosso déficit em produtos industriais ficou enorme: proporcionalmente exportamos menos e importamos muito mais”, afirmou. Trata-se de uma meia-verdade, por assim dizer. É verdadeiro que o Brasil tem importado muito mais, em parte como consequência do dólar desvalorizado e do aumento do consumo interno. Mas é falso que estejamos exportando menos. Ocorre que as exportações aumentaram em ritmo menor que as importações.

Sobre a entrevista à Folha, o Clarín, geralmente mais conservador, desta vez deu tom mais explícito a seu texto, afirmando que Serra pretende liquidar a política comercial comum e revisar os acordos de 1994, quando se fundou o Mercado Comum. O diário considera que o empresariado argentino está apreensivo com o tom do pré-candidato pela possibilidade de voltar aos anos 1990, ou seja, a uma área de livre comércio.

Novamente
É a segunda vez em menos de duas semanas que Serra fala sobre Mercosul – e gera mal-estar no país vizinho. Ao afirmar que o Mercosul é uma farsa, o tucano recebeu recados bastante claros do ministro de Relações Exteriores da Argentina. Jorge Taiana explicitou que o bloco econômico está, sim, avançando. “Não me parece que seja essa a posição do Brasil nem da maioria dos setores econômicos e políticos”, declarou na semana passada.
Rede Brasil

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